No final dos anos 50, ainda nos primeiros anos da recém-criada Rádio e Televisão de Portugal, nascia o primeiro programa de informação diária no único canal de televisão do país. Dois anos depois do início das emissões regulares, em 1957, e após a emissão de programas informativos breves, a RTP aposta num espaço informativo diário que hoje se confunde com a história da televisão e do jornalismo em Portugal.
A preto e branco, às 20h32, com alinhamento de notícias na mão e notas em folhas de papel, o jornalista Mário Pires anuncia as primeiras notícias: “Senhores espectadores, muito boa noite! Vamos apresentar a primeira edição do Telejornal da RTP constituída por noticiário e atualidades do país e do estrangeiro”.
Os primeiros decénios do programa não escaparam às amarras do regime nem às limitações técnicas da televisão. E nem a ideia das imagens televisivas como arquivo histórico relevante para o futuro predominava como hoje. Inspirado no Telegiornale (1954), da televisão italiana Rai 1, o Telejornal é apresentado por vários jornalistas de imprensa e do mundo radiofónico, como Alberto Lopes, Henrique Mendes ou José Fialho Gouveia.
Nos 60 anos que passaram, muitos foram os acontecimentos noticiados e acompanhados a fundo pelo Telejornal. A nível de eventos internacionais, a RTP evolui com os progressos tecnológicos, o que permite uma cobertura noticiosa cada vez mais eficiente e um número cada vez maior de correspondentes e enviados especiais aos principais palcos a nível global, assim que as características práticas de emissão e o fim da censura o permitiram.
Da Guerra Colonial ao 25 de Abril
Os primeiros anos da informação televisiva diária começam com uma prova de fogo para os repórteres da RTP: Arriscaram a vida para cobrir um acontecimento incontornável da história de Portugal, mas poucas imagens são exibidas na televisão pública por intervenção da censura.
Uma equipa de reportagem seguiu para o Recife logo em janeiro de 1961, para cobrir o ataque ao navio Santa Maria, paquete desviado por Henrique Galvão com o objetivo de provocar uma crise política no Estado Novo. O ex-militar pretendia desembarcar em Luanda, Angola, e desencadear um golpe de Estado, mas acabou por pedir asilo político ao Brasil e o barco regressou a Lisboa.
Hélder Mendes, realizador, conta que a equipa partiu de Portugal sem saber para onde ia. “Depois de duas ou três horas no mar, nas nuvens, sem saber o que se passava, olhei lá para baixo e vi o Santa Maria, calmamente parado lá em baixo no oceano. Apontei-lhe a câmara e filmei”, conta em entrevista à RTP.
As primeiras movimentações da Guerra Colonial começam em Angola quando os movimentos de libertação decidem aproveitar a presença dos jornalistas que pretendiam cobrir a chegada do Santa Maria a Luanda. Numa ação de revolta contra as detenções naquela colónia, a 4 de fevereiro de 1961, morrem sete agentes da polícia e um cabo.
Os funerais foram filmados por uma equipa da RTP que ali se encontrava desde janeiro a fazer documentários sobre Angola. António Silva, repórter de imagem da RTP conta que só conseguiu obter imagens desses dias por ser de noite. “Eu não podia abrir iluminação, senão era abatido. Havia tiros logo para onde houvesse luz”, recorda.
No contexto da Guerra Fria, intensificam-se os conflitos com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apoiada pela URSS, e ainda com uma sublevação da UPA (União dos Povos de Angola), futura FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). A equipa da RTP consegue sair de Luanda e apanhar um avião para Carmona – atualmente, a cidade de Uíge, no norte de Angola - com o objetivo de gravar os massacres.
Em Carmona, a equipa acompanhará uma coluna formada por militares e colonos que procuravam retomar as cidades do norte e enfrenta condições duríssimas de sobrevivência, com vários casos de tentativas de envenenamento de água. Chegados a Maquela do Zombo, junto à fronteira com a República Democrática do Congo, António Silva filmou algumas das mais impressionantes imagens de carnificina.
O repórter, que tinha estado recentemente em Angola para gravar um concurso de ‘Misses’, tem agora diante de si um cenário dantesco. Chegado ao mato, a primeira pessoa que vê assassinada é a rapariga que tinha vencido esse mesmo concurso.
“A primeira pessoa que eu vejo no mato, morta, é a rapariga que tinha sido eleita”, conta António Silva na reportagem de Jacinto Godinho.
No entanto, apesar de todos os esforços, muitas das imagens gravadas por António Silva nunca foram exibidas na televisão portuguesa, nada que impedisse a sua gravação. “A gente quando anda com a máquina na mão não pode deixar passar nada. A gente tem de ver o que se passa através daquele retângulo”, acrescenta.
Nesse mesmo ano, a guerra intensifica-se em julho com o envio de tropas portuguesas para Angola, com o intuito de conquistar territórios perdidos.
A operação é acompanhada de perto por José Neves da Costa e Serras Fernandes. O corpo de um sargento vítima dos confrontos é transportado pelo próprio Serras Fernandes, que estava ao seu lado quando este foi atingido.
“Essas cenas não foram vistas pelos espectadores. A espantosa censura cortou porque não era bom, diziam eles, emocionar demasiadamente os espectadores”, recorda José Neves da Costa.
O trabalho destes dois jornalistas haveria de resultar num documentário sobre o início da Guerra Colonial em Angola, centrado sobretudo na reconquista do território de Nambuangongo pelas tropas portuguesas. Esse material recolhido em 1961 só foi reunido em 1964 numa grande reportagem que foi arquivada e que só viria a ser transmitida em televisão quase 50 anos depois, em 2009.
Para Adriano Moreira, na altura ministro do Ultramar, este primeiro ano da Guerra Colonial foi acompanhado pelos jornalistas e repórteres de forma apropriada: “No trabalho que fizeram nessa época não se pode encontrar nenhuma condescendência com a verdade. Havia serviços de censura, é evidente. A censura pode ter tido intervenção - certamente teve - em algumas circunstâncias. Em relação a esses rapazes, tão jovens que eles eram, julgo que eles cumpriram com rigor a sua função de testemunhar”.
Nos anos seguintes, continua a tensão entre a necessidade de informar e o papel de meio de comunicação do regime. Por exemplo, em 1965, notícia da morte de Humberto Delgado é apresentada no Telejornal de forma telegráfica, com citação de uma notícia da agência France Presse. Vasco Hogan Teves, jornalista responsável pela apresentação do programa, vê que o tema é classificado claramente como “um assunto a não tratar”.
Já as imagens de manifestações e a revolta estudantil durante o Maio de 68, em França, são amplamente exibidas no Telejornal da RTP. As violentas imagens dos confrontos entre a polícia, os operários e os estudantes não são censuradas em Portugal, até porque convém ao regime exibir na televisão o mundo violento que contrasta com a acalmia vivida em Portugal. No entanto, a atenção dada pelos meios de comunicação portugueses acaba por ajudar a impulsionar os estudantes em Portugal, desembocando na crise académica no fim da década de 60.
Anos mais tarde, a 25 de abril de 1974, a RTP mostraria imagens do exterior do quartel do Carmo, ponto nevrálgico da revolução dos Cravos, no momento que marcou queda do regime. Nesse dia, Fernando Balsinha inicia o Telejornal a informar que toda a rede emissora da Radiotelevisão Portuguesa está controlada por forças do Movimento das Forças Armadas.
Uma emissão histórica, em que o jornalista José Fialho Gouveia lê um comunicado do MFA, reivindicando o controlo de toda a ação política no país, com a ocupação dos Ministérios, postos de estação emissoras de radiodifusão e televisão, aeroportos e fronteiras.
Fialho Gouveia, nomeia ainda os funcionários da RTP que fizeram a emissão do 25 de abril e os militares que tinham ocupado os Estúdios do Lumiar. Lê ainda o aviso aos trabalhadores da RTP, para que compareçam no dia 26 de Abril, segundo os horários previstos nos locais de trabalho.





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